quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Shine

Years & Years


Há muito tempo não me animava com uma novidade na música. Quando isso acontece, sinto uma enorme necessidade de compartilhar.

O trio de música electro-pop Years & Years é da Inglaterra e, no circuito alternativo, faz muito sucesso. Conheci por acaso, madrugada dessas, zapeando pela TV até chegar à MTV, que exibia uma apresentação deles num festival europeu. A plateia sabia as letras e cantava aos berros.

O que me chamou a atenção, de cara, foi o visual do vocalista Olly Alexander: franzino, meio orelhudo, corte de cabelo irregular, algum glitter e uma roupa vermelha, frente única, que sugeria uma saia no lugar das calças. Junto com ele, logo atrás, os demais integrantes (o baixista Mikey Goldsworthy e o tecladista Emre Türkmen) tocavam, tímidos, num visual meio retrô.

Olly tem 26 anos e já se declarou uma pessoa de gênero fluido. Ora está de camiseta, bermuda e tênis, ora de sunga dourada ou vestido. Foi alçado a porta-voz da galera GLBTQ e lançou até um documentário sobre o tema.

O cara é a alma do Years & Years, que lançou o primeiro disco, o excelente Communion, em 2015, e já amealhou alguns prêmios. A riqueza da produção e das composições é de fazer inveja aos grandes da cena radiofônica.


Os clipes são meio bizarros, com uma linguagem visual rústica e, por vezes, soturna. As músicas e vídeos exploram bastante a dualidade entre sexo e religião, sem menosprezar a cartilha do pop, marcada por histórias de desilusão amorosa e superação.

A faixa King é a de mais sucesso até agora. É genial, dançante e dá vontade de cantar junto. A maior parte do repertório, porém, é mid-tempo, com direito também a uma ou outra balada, a exemplo da maravilhosa Eyes Shut. Outros momentos brilhantes são RealTies, Worship, Desire e Take Shelter.

No palco, é notável que a força da música supera a ainda inconsistente atitude do trio (Olly, especialmente, precisa aprender a explodir, fazer aquela entrada, caprichar mais na dança, impor sua presença etc), algo que deve melhorar naturalmente com os anos e o lançamento do próximo disco, já no forno e cercado de expectativa.

Gostei tanto dessa tchurma que fui lá no Instagram da Madonna e deixei um recado. Years & Years na produção do próximo disco da Madonna seria meu sonho? Claro ou com certeza? 

Pra terminar, o vídeo de Shine, minha música favorita da banda (até agora). Lots of love and thanks!

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Lixo ou luxo?

O pop e a arte

"Artpop", de Lady Gaga: vendeu pouco porque é arte, ou é arte porque vendeu pouco?

Desde que Andy Warhol proclamou a era em que todos teriam 15 minutos de fama, a discussão sobre o que pode ser considerado arte só ficou mais confusa.

Digo isso baseado numa conversa com amigos em que esse debate, a certo ponto, ficou acalorado. Falávamos de Pablo Vittar, cantora drag queen brasileira, e a visibilidade que a artista vem alcançando na grande mídia (e não só em nichos específicos, como as boates GLS).

Se você já viu algum clipe de Pablo, vai concordar que a produção é caprichada, nível mainstream. As músicas do disco "Vai passar mal" (sucesso em streamings) remetem à MPB, ao funk, ao pop e ao eletrônico. Algumas faixas ganharam o toque de Diplo, um dos DJs mais famosos do mundo.

A voz é discutível. Mas é absolutamente louvável que uma drag esteja provocando o debate e, principalmente, fazendo seu ninho na imensa e democrática árvore da música. A recente parceria de Pablo com Anitta é apenas mais um indício.

A drag teve a faixa mais tocada no Carnaval do Nordeste ("Todo Dia") e começa agora a quebrar barreiras nas emissoras de rádio e TV voltadas ao grande público. Afinal, o que é pop e o que é arte nessa história?

Meus amigos não curtiram Pablo Vittar. Uma querida chegou a afirmar que esse sucesso todo faz parte de uma conspiração para emburrecer o público que consome música, a fim de que tenhamos uma geração ainda mais apática cultural e politicamente. Hummm...não sei.

No universo da música pop, é pouco provável que exista uma entidade, ou um governo, ou seja lá o que for, comandando um projeto ultrassecreto de emburrecimento em massa. O que temos é a famosa cultura massificadora, cujo alvo é mesmo o comércio, em distintos patamares.

Quando a ênfase é no desempenho comercial, a arte fica no prejuízo, é verdade. Mas não se apaga totalmente. Exemplo disso são os grandes artistas nacionais e internacionais, de Marisa Monte a Michael Jackson, detentores de vendas vultosas e, ao mesmo tempo, de trabalhos louváveis.

drag Pablo Vittar em "K.O.", recordista de views na internet.

A música e a dança, mesmo que resumidas ao funk libidinoso dos bailes cariocas, invocam expressões artísticas intrínsecas e indivisíveis, dificilmente aliadas ao descartável, mas facilmente atreladas ao lúdico. Daí a confusão em estabelecer o limite entre a quantidade (volátil e fundamental para o comércio) e a qualidade (perene e associada a manifestações mais sofisticadas).

Por muito tempo, acreditou-se que a arte só poderia ligar-se ao sublime, ao lírico, a uma espécie de luxo cultural, avesso ao popular, uma ideia que, aos poucos, vai sendo desconstruída.

Se partirmos do princípio de que arte é tudo aquilo que permanece e provoca reflexão (e nada mais), então ficaremos presos aos quadros, pinturas, instalações e esculturas das grandes e pomposas exposições. Por outro lado, se entendermos que da natureza da arte também floresce o entretenimento, o mundo ganha novos tons e possibilidades.

Não precisamos gostar de tudo. Nem negar o óbvio. É claro que nem toda arte entretém, e vice-versa. Há, por vezes, uma linha tênue entre ambos. Pode haver, num só pacote, mais arte e menos diversão. Ou mais diversão e menos arte. 

Prefiro considerar um show de Ariana Grande (ou da nem tão pop Tove Lo) uma espécie de simbiose composta pelos interesses da indústria e a arte de entreter. Recuso-me, assim, a desmerecer a arte implícita no canto, nos movimentos, nos figurinos e na própria iluminação que ajuda a incendiar as sensações.

Voltando a Pablo Vittar, não comprei o disco, não ponho pra tocar em casa, mas, vez por outra, gosto de admirar os vídeos e a classe com que essa drag queen consegue se expressar nesse mundo ainda tão opressor das minorias e atrapalhado quanto aos gêneros. 

Ouso dizer que a drag, por si só, incorpora na sua apresentação uma qualidade artística primordial, aquela que favorece, de uma forma mais ou menos cultural, a mudança, a transformação.

Não por acaso, Lady Gaga (que é quase uma drag, vai) deu o nome de "Artpop" a um de seus discos. Vendeu pouco, é verdade. Porque é arte. Mas vendeu. Porque é pop. É bem por aí.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Danos morais

Marcela Tavares é gozação

Marcela Tavares em Ribeirão Preto: eu tô ali, na primeira fileira. 

Não sei se foi só impressão, mas achei a Marcela Tavares menos engraçada ao vivo do que na internet. No Teatro Municipal de Ribeirão Preto, onde a facebooker (sim, você leu certo) apresentou o stand up "Danos Morais", foi tudo, sei lá, meio pombo.

A carioca que faz fama na rede social com seus vídeos politicamente incorretos (quase sempre descendo o sarrafo nos corruptos ou reclamando de quem escreve errado) pareceu meio nervosa e teve dificuldade para arrancar gargalhadas do engessado público ribeirãopretano.

Marcela foi mais aplaudida quando fez piada com a ex-prefeita Dárcy Vera e o atual Duarte Nogueira, um truque manjado dos humoristas pra ganhar a plateia da cidade onde se apresentam. A moça também se rendeu a outros clichês do teatro, como pegar um infeliz da plateia pra Cristo (dessa vez, foi um tal de Luiz, que ela insistia em chamar de feio).

Fora isso, teve "Fora, Temer" e de tudo um pouco que a gente já viu por aí: piadinhas escatológicas (muitas de mau gosto), palavrões e comentários duvidosos sobre minorias. Marcela Tavares até tentou ser espontânea, mas, assim como em qualquer stand up, as piadinhas, acredite, são programadas. 

Descalça, com um vestido curto (que, em alguns momentos, deixava sua calcinha à mostra para quem estava na primeira fileira) e usando brincos no formato de laranjas, a comediante se transformou, em pouco tempo, numa caricatura de si mesma e, tenho convicção, sente a pressão pra ser engraçada o tempo todo, o que, por vezes, soa exaustivo.

Foto do perfil de Marcela Tavares no Facebook.

Rápida no gatilho quanto o assunto é internet, onde costuma ser bem mais desenvolta que no palco, Marcela acertou em cheio em alguns detalhes. Antes de entrar, por exemplo, a gata troca mensagens e fotos engraçadas por whatsapp com a plateia, através de um telão, pra esquentar o público. Genial.

O vídeo de introdução do espetáculo, nesse mesmo telão, é hilário, talvez o melhor momento do show, com instruções e sugestões absurdas para os espectadores. No mais, é Marcela, baixinha que só ela, fazendo piadas, algumas razoáveis. Poucas são sensacionais. A maioria é chatinha, abaixo do nível de qualquer vídeo dela corrigindo os analfabetos funcionais desse mundo.

Não foi o melhor stand up que já vi. Aliás, não sou muito fã desse formato, a exemplo do que já escrevi sobre Paulo Gustavo em "Hiperativo" neste blog. Por outro lado, tenho um profundo respeito por quem se arrisca a ganhar dinheiro no teatro e, acima de tudo, dá a cara a tapa, correndo o risco de tomar processo, como é o caso da Marcela com sua metralhadora giratória.

Em "Danos Morais", sobra pra todo mundo: Temer, Marcela (a do Temer), Dilma, homens, mulheres, héteros, gays, religiosos, magros, gordos, bonitos e feios. Tem que levar na brincadeira, esse é o espírito. A gente sabe que por trás dessas piadas há algumas verdades, descontadas as provocações. 

Cabe a nós, com bom senso, fazer a distinção. E, no final, mesmo que com um sorriso amarelo, reconhecer o esforço da facebooker pra conquistar o seu lugar ao Sol nesse mundo tão chato, onde dar risada tá cada vez mais difícil. 

A nossa sorte é que o Brasil é piada pronta. E a Marcela Tavares é pura gozação.

domingo, 4 de junho de 2017

Paixão por praia

Eu sou o mar


Sou água, meio verde, meio azul, que não descansa e não se rebaixa. Minha alma tem um pouco de sal, um pouco de algas, peixes, pedras, mistérios profundos.

Sou onda furiosa, onda mansa, posso parecer piscina, posso virar um maremoto. Minha Lua é meu humor, descanso embaixo do céu, da chuva, das nuvens e do Sol.

Secos e molhados, ambos convivem em mim. Minha areia é úmida pela manhã, seca durante à tarde e submersa à luz do luar. Mas tudo muda de lugar, basta uma tempestade ou dias de calmaria.

Encontro-me com o céu no infinito, vejo-me decorado por barcos, lanchas e povaréu, porém é na baixa temporada que me conheço de verdade. Eu, o Sol, a Lua e uns poucos acompanhantes.

Tenho grande capacidade de resiliência. Junto-me ao vento, camuflo-me num tsunami, não brigo com as feras que passam por mim e que se alimentam do que ofereço. Prefiro abrigá-las, nutri-las, dar-lhes a luz e a sombra de que precisam. E descansar na paz que me é inerente.

Resisto ao lixo que me jogam, ao óleo poluente na minha areia, ao petróleo que mancha minha água, ao entulho que se deposita lá no fundo e, aos poucos, vira relíquia, segredo, algo a ser descoberto, parte da história, minha e dos que viveram em mim.


Às vezes, me escondo entre árvores, pedras, protegido por estradas longínquas, esburacadas. Posso ser de difícil acesso e, por isso mesmo, oferecer os prazeres da descoberta, da exploração dos meus tesouros.

Outras vezes, sou das multidões, dos quiosques, componho a orla junto a arranha-céus, dividindo o mesmo céu que testemunha o desespero dos arrastões, a serenidade de um passeio à minha beira, a delícia de um beijo com gosto de maresia, de um carinho na presença das conchas, de uma alegria de cachorro ou criança.

Sou passarela de cruzeiros, de vendedores ambulantes, de restaurantes rústicos, ou chiques, de sorveteiros e baianas munidas de acarajé.

Não importa o lugar do mundo, vejo Deus em mim, nessa junção perfeita de oceano com areia; de montanha com cidade; de céu com água; de humanidade com energia constante, vida perene, beleza única e inconteste.

Sou, antes de tudo, uma ode à democracia. Aberto a todos, sem qualquer tipo de discriminação ou preconceito. Já vi passarem por mim velhos, jovens, ricos, pobres, gordos, magros, deficientes, homens, mulheres, trans, negros, brancos.

Nem todos me veem do mesmo jeito. Poucos me valorizam de verdade, a maioria me quer só pra lazer ou contemplação. Eu não ligo. Sou uma força da natureza. Complacente com o bem que me representa, avesso ao mal que não me reflete, eternamente satisfeito com a solidão que me abraça nos intervalos de convivência.

Sou o divino banhado e mostrado de todas as formas. Sou Rio, Guarujá, Camboriú, Fortaleza, Bombinhas, Miami, escolha. Dentro de mim há força, magnitude, tudo passa, eu fico. Mudo, mas permaneço. Vou e volto a mim mesmo. É o meu movimento. É a minha essência. Sou a onda no mar que o Lulu canta. Sou "P" de paixão, de puta que pariu! 

Sou praia. Sou mar.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

"A Cabana"

O livro é melhor


Vi o filme "A Cabana" e, ao contrário da maioria dos críticos, não achei de todo ruim.

Breve sinopse: pai revoltado com a morte da filha busca se reconectar com Deus para entender o que aconteceu e melhorar sua vida em família.

O livro é melhor, como manda a tradição. Acho que ambos, contudo, têm como mérito questionar os estereótipos da religião, desconstruindo a forma como enxergamos Deus e seus desígnios.

As mensagens são muitas e beiram a obviedade: cada um escolhe seu caminho; toda escolha tem suas consequências; ninguém pode ser juiz de ninguém; a vida se encarrega; e por aí vai.

Acho válido. Algumas passagens são muito bonitas e emocionantes, assim como no livro. Não segurei as lágrimas. No entanto, como filme, tecnicamente falando, poderia ser melhor.

Em alguns momentos, chega a ser tedioso. O elenco é bom, em sua maioria. Mas o ator principal (Sam Worthington, aquele de "Avatar"), é fraco, não segura a onda.

O principal ali, pelo menos para mim, é um ensinamento que não tem preço: o nosso estado mental e as nossas emoções definem o universo à nossa volta, a nossa vida, o nosso céu e o nosso inferno.

"A Cabana", enfim, é menos sobre religião e mais sobre a lei universal da causa e efeito. Podemos dar a essa lei qualquer roupagem, inclusive a religiosa. De seus efeitos ninguém escapa, nem ateu, nem fanático.

No frigir dos ovos, a escolha entre o bem e o mal é nossa. O filme, visto desse modo, firma-se como um libelo por um mundo em que assumamos mais a responsabilidade por nós mesmos.

Porque Deus (seja lá como você o vê) vai continuar nos acompanhando, dando uma mãozinha aqui e ali. Só não é justo deixar tudo no colo Dele.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Corra!

Veja este filme


Sem rodeios: o suspense "Corra!" é um dos melhores filmes do ano. E, talvez, um dos melhores a que eu tenha assistido na vida.

Não por acaso, é uma história original (ou seja, não é uma adaptação, um reboot, uma refilmagem, nada disso). O diretor Jordan Peele aposta na simplicidade e num argumento possível, ainda que fantasioso: a transferência de consciência. Paro por aqui, sem spoilers.

O casal protagonista, interpretado por Daniel Kaluuya e Allison Williams, sustenta com competência a história, repleta de tensão racial. Ele, negro; ela, branca. A família dela, aparentemente, é tolerante e amável. O resto já dá pra imaginar.

Em tempos de Trump, preconceitos exacerbados e a escalada da extrema-direita ao poder, um filme que explora relações inter-raciais de maneira tão inventiva e assustadora chega a ser um alívio para os amantes do bom cinema e um sinal de que a arte deve se interpor como o mais importante contraponto político nessa era de crise generalizada.

O filme está tão bem cotado que anda causando na internet, onde as discussões borbulham. O diretor, animado com a repercussão, liberou um final alternativo, a ser incluído no DVD. 

Com roteiro ágil e cenas perturbadoras, "Corra!" (Get Out) consegue ser cult, sem deixar de ser pop. Ainda está nos cinemas e merece ser visto. Corra! 

O ano promete. Depois dos também ótimos "Fragmentado", "A Autópsia" e "Alien Covenant" (nem sei escolher qual desses três gostei mais), estão pra chegar "Annabelle 2"e "It", aquele do palhaço aterrorizante.

Pronto, 2017 já valeu. Pelo menos a pipoca.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Ciclo automático

"Lava e seca" para presidente


Confúcio disse certa vez: "Quando vires um homem bom, procura seguir seu exemplo, e quando vires um homem mau, examina-te a ti mesmo por seus defeitos". Quero refletir sobre política e sobre nós mesmos, meus caros. Por analogia. Pois bem, venham comigo.

Comprar uma máquina que lava e seca roupas era um desejo de anos e me custou algumas economias. Depois de pesquisar muito, adquiri a minha mais nova companheira pela internet, num site com bom preço e as melhores condições de pagamento. Cumpri com o meu dever de consumidor consciente e me sinto satisfeito.

A via-sacra em busca de uma lava e seca que me agradasse, no entanto, revelou mais do que a eficiência do promissor mercado online brasileiro. Foi também um bom termômetro de como andam as lojas físicas, já que percorri algumas para checar as ofertas.

O que presenciei foi assustador. E volto a afirmar (como já escrevi em outros textos): a culpa pela situação do Brasil não é só dos políticos especializados em corrupção. É, principalmente, do povo (e aqui tomo a liberdade de generalizar), que ainda não fez seu devido mea culpa. Explico.

Na primeira loja, ninguém se levantou da cadeira para me ajudar, pra perguntar o que eu queria, para me oferecer água ou um bom negócio. Era como se eu não existisse. Olhei rapidamente os modelos de máquinas à disposição e me retirei. 

Na segunda, foi trágico. Pior do que se sentir invisível é perceber que você é um estorvo por tentar um desconto. Eu estava disposto a pagar à vista (minhas economias me permitiam a ousadia), contudo a negociação não avançou. O vendedor queria me cobrar outros duzentos e trinta e cinco reais pela instalação. Agradeci e fui embora.

O fulano tinha o meu telefone. Não ligou. Não se mostrou interessado em convencer o gerente de que ali estava uma boa oportunidade em tempos de crise. Não fez uma nova oferta. Não se esforçou pra ser simpático. Perdeu o cliente.

Na terceira loja, o golpe final. Um dos funcionários apontou onde estava a máquina que eu procurava. Errou a marca. Não conhecia o produto. O preço estava salgado. Diante de tamanha indiferença, preferi ir pra casa e ligar o computador.

Fechei negócio sem contato humano. O site foi cordial e concedeu a possibilidade de negociar o valor. Parcelei sem juros. O atendimento por e-mail, até agora, mostrou-se correto.


Fiquei pensando em como essa experiência pode ser um indicador do nosso momento político e social. Estamos cercados de pessoas e profissionais programados no ciclo automático.

E aí eu me lembro dessa bagunça do Brasil, dessa disputa imbecil entre esquerda e direita, das reformas da previdência, trabalhista, mas não da humana. E aí eu me lembro da primeira vez em que fui maltratado em uma loja, das muitas vezes em que fui mal atendido em restaurantes, pizzarias, de quando dei um boa tarde na rua e não recebi um sorriso de volta. 

E aí eu lembro que a minha dentista atendeu ao celular para falar com a filha enquanto ainda mexia na minha boca. E aí eu lembro que a minha escovação é perfeita, mas ela não quis dar nem um real de desconto pelo serviço.

E aí eu lembro que não acredito em partidos políticos. Creio em pessoas, em caráter, em boas intenções, só que isso tá ficando escasso demais. Ironicamente, é nas lojas, onde reina a nossa (falta de) lógica baseada no consumo, que sentimos como fundamentos importantes estão comprometidos com o superficial, com o imediatismo, com a reificação da própria humanidade, no pior sentido.

Enquanto isso, lá fora, a coisificação toma proporções assustadoras no Congresso, no Senado, nas câmaras, prefeituras e onde mais a gente tem o hábito de colocar nossos iguais.

Querem fazer greve contra políticos, contra o mal-feito, contra salário baixo, contra a perda de direitos? Experimentem olhar para si mesmos. Experimentem eliminar os atos de corrupção de seus cotidianos, deixando de levar vantagem nas mínimas atitudes. 

Experimentem tratar melhor o cliente, o amigo. Experimentem fazer o trabalho primeiro, atender ao celular depois. Experimentem separar o lixo, não jogar sujeira na rua. Apenas experimentem. Depois, livres dos vícios e corrupções diárias, experimentem votar em quem tem o currículo limpo e mais potencial para fazer bem ao país. 

Por fim, experimentem comprar uma lava e seca e lidar com as pessoas aí fora. Eu tenho fé de que, um dia, o atendimento de carne e osso vai voltar a ser melhor que o virtual. E de que, num futuro ainda incerto, teremos políticos que reflitam a nossa própria melhora. "A paciência é amarga, mas seu fruto é doce", elaborou J.J. Rousseau. Por enquanto, a tenologia me parece mais palatável, humana e capaz. 

Se a tendência da soberania da máquina sobre o homem se confirmar, pretendo lançar minha lava e seca como candidata. Pense bem: ao contrário da maioria aí fora, ela tem vários ciclos além do automático. É honesta. Cumpre o que promete. É eficiente, silenciosa, só abre a tampa com o serviço pronto. "Lava e seca" para presidente. Por mim, já ganhou.